As marcas de Paolinelli para o Brasil e o Mundo

Um dos fatos econômico-sociais mais marcantes na segunda metade do século XX foi a inédita revolução agrícola sustentável realizada nos trópicos. Este evento, que aconteceu a partir da década de 1970, no Brasil, mudou o cenário de segurança alimentar no país e no mundo. Foi uma revolução pacífica e embasada na sustentabilidade, liderada por um engenheiro agrônomo visionário, Alysson Paolinelli. Ele abriu uma nova página para a história da agricultura mundial.

Como professor, Secretário de Estado, Ministro da Agricultura, membro do Congresso Nacional e líder rural comandou o desenvolvimento de sistemas de produção e o uso racional dos recursos no bioma do Cerrado brasileiro, que deram origem à revolução agrícola tropical sustentável. Dedicou-se a esta tarefa a vida inteira, sempre com base na ciência, tecnologia e inovação. E hoje, aos 84 anos, mantém sua cruzada pela segurança alimentar e continua um entusiasta das contribuições oferecidas pela agricultura tropical para o alcance dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).

Para entender o real alcance da revolução agrícola tropical sustentável impulsionada por Alysson Paolinelli, cabe visitar cinco de suas dimensões principais. 

Na década de 1970, o Brasil era importador líquido de alimentos básicos e a revolução agrícola garantiu a autossuficiência alimentar e a redução do peso da alimentação nos gastos de consumo das famílias. O País se transformou no fiel da balança da segurança alimentar mundial, representando hoje 16,2% da exportação mundial de alimentos básicos.

Para impulsionar esse salto agrícola, Paolinelli priorizou a ciência. Deu vida a um sistema de pesquisa agropecuária tropical único no mundo, cujo grande destaque foi a EMBRAPA, a maior empresa de tecnologia agropecuária do mundo tropical, hoje com 2.400 pesquisadores e 42 unidades descentralizadas de pesquisa, 26 delas criadas quando ele era Ministro da Agricultura. 

Paolinelli também estabeleceu as raízes que a revolução agrícola tropical sustentável precisava para crescer e frutificar. Como Ministro criou instituições, políticas e organizações que viabilizaram a modernização da agricultura tradicional. Uma das principais foi o Programa de Desenvolvimento dos Cerrados (POLOCENTRO), que formulou políticas agrícolas para a região. Essa e outras iniciativas foram fundamentais para institucionalizar a estrutura de governança que impulsiona a expansão da revolução agrícola tropical até hoje. 

Alysson Paolinelli exerceu um papel estruturante quanto às empresas de pesquisa e de assistência técnica e extensão rural, implantou programas de assentamento e desenvolvimento no campo, bem como a criação e viabilidade do crédito para edificar as mudanças necessárias para a promoção de uma agricultura moderna e sustentável. Tudo isso foi feito a partir também da incorporação dos cerrados como território produtivo.

Entusiasmado com a região, o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1970, Norman Borlaug, afirmou em 1994: “o Cerrado brasileiro está sendo palco da segunda ‘Revolução Verde’ da humanidade. Os pesquisadores brasileiros desenvolveram técnicas que há 20 anos tornaram uma área improdutiva na maior reserva de alimentos do mundo. Quero levar essas técnicas para a África”.

Atualmente os 1.102 municípios situados no bioma Cerrado produzem 46% da safra de soja do país, 49% do milho, 93% do algodão e 25% do café. Na pecuária é responsável por 32% do rebanho de bovinos, 22% dos frangos e 22% dos suínos, segundo os dados do IBGE.   

O aumento da produtividade da revolução agrícola tropical causou um efeito poupa-terra de 128 milhões de hectares, de 1961 a 2018. Essa seria a área adicional necessária para atingir a produção de cereais e oleaginosas do Brasil em 2018 (230,6 milhões de toneladas), caso não tivessem ocorrido ganhos notáveis de produtividade no período. Como resultado dessa eficiência, o Cerrado brasileiro conserva 54% de área com cobertura vegetal natural, sendo que 35% protegido por lei e vedado à exploração econômica.  

O salto produtivo proporcionado pela revolução agrícola tropical sustentável reduziu o custo relativo da alimentação dentro do orçamento familiar e liberou renda para outros consumos, dinamizado a economia brasileira como um todo. Também estimulou a interiorização do desenvolvimento, gerando empregos, aumento de renda e melhoria do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) nas regiões de base agropecuária. 

O Ministro Paolinelli ainda participou da criação do Proálcool (1975), o primeiro programa mundial de produção em larga escala de combustível limpo e renovável a partir de biomassa. Hoje, o balanço de emissões neutralizadas pelo programa está na casa dos 200 milhões de toneladas de CO² por ano. Além da geração de energia limpa e renovável, ao reduzir as emissões há também benefícios diretos quanto à saúde e bem-estar da população. 

Da segurança alimentar ao fomento científico e tecnológico, dos saltos de produtividade ao desenvolvimento econômico e melhoria social – todas essas conquistas estiveram alinhadas com conceitos de sustentabilidade, envolvendo 11 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que recebem até hoje impactos positivos da revolução agrícola tropical sustentável de Paolinelli.

Incansável, Paolinelli continua na vanguarda do seu tempo. Através do Instituto Fórum do Futuro mobiliza organizações de ciência para a realização do Projeto Biomas Tropicais. Entende que é possível gerar uma verdadeira revolução científico-tecnológica a favor das pessoas, em harmonia com o meio ambiente e em benefício da Paz mundial.